I Workshop do projeto “Vozes dos Manguezais de Guarapari” investiga a resiliência costeira e o impacto humano nos manguezais da região

Em meio as mudanças do clima, cientistas mergulham nos estuários de Guarapari para decifrar o passado e proteger o futuro de um dos mais eficientes ecossistemas do planeta no sequestro de carbono.

Guarapari (ES) – Enquanto o mundo busca soluções para as consequências das mudanças climáticas, uma equipe de pesquisadores e estudantes estão, entre os dias 1 a 5 de setembro, com os pés na lama da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Concha da Ostra e nos rios Una e Perocão. As atividades fazem parte do I Workshop do Projeto “Vozes dos Manguezais de Guarapari. Participando de uma expedição científica que vai muito além de um simples passeio ecológico, os participantes realizam o levantamento e coleta de dados nos locais. A iniciativa neste workshop une o Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), na busca pelo diagnóstico da saúde destes ecossistemas e traçando seu estado atual em meioo às pressões humanas e ambientais, gerando dados precisos para a conservação em escala nacional.

O projeto é liderado pelo Prof. Dr. Marlon Carlos França, pesquisador do IFES, com pós-doutorado em Oceanografia e vasta experiência em dinâmica costeira. Para ele, o objetivo é traduzir os sinais que o ecossistema emite. “Os manguezais são sentinelas da costa. Através da análise dos sedimentos, conseguimos reconstituir a história ambiental da região e identificar os impactos recentes”, explica Dr. França. “Nossa hipótese central é que a expansão urbana e as mudanças no uso do solo nas bacias hidrográficas alteraram a composição química e a taxa de acúmulo de sedimento, o que pode gerar mudanças no ecossistema e reduzir sua capacidade de resiliência.”

O workshop conta com a presença de outros dois pesquisadores, Dr. Danilo de Lima Camêlo e Dr. Pablo de Azevedo Rocha, ambos da Universidade Federal do Espírito Santo.

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Decifrando o passado para proteger o futuro

Financiado pela FAPES e SEAMA, o projeto emprega uma abordagem de “paleoecologia aplicada”. Durante o workshop, a equipe utiliza equipamentos como o trado russo, capaz de extrair testemunhos de sedimento de até 10 metros de profundidade, preservando as camadas intactas. “Cada centímetro dessas amostras é uma página da história,” detalha os pesquisadores. “Neles, buscaremos por biomarcadores, como grãos de pólen, assim como pela composição química para entender como a vegetação e as condições marinhas mudaram ao longo das últimas décadas e séculos.”

A colaboração interinstitucional é estratégica. Enquanto a equipe do IFES, Campus Piúma, aporta sua expertise em dinâmica costeira, os pesquisadores da UFES, Campus Alegre e Vitória, contribuem com análises de solo. “Os desafios são imensos,” admite Dr. França. “O acesso é difícil e algumas áreas estão visivelmente degradadas por esgoto e desmatamento. Mas é justamente nesses locais que os dados são mais urgentes.”

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Uma peça no quebra-cabeça global

A importância do projeto transcende as fronteiras de Guarapari. Manguezais são “super-ecossistemas” de carbono azul, capazes de estocar até cinco vezes mais carbono por hectare, quando comparado com florestas tropicais terrestres. Além disso, atuam como barreiras naturais, protegendo a costa contra a erosão e eventos climáticos extremos.

A metodologia de análise de testemunhos sedimentares é padrão ouro na ciência paleoambiental e permitirá entender a velocidade e a escala das mudanças. Cada estuário monitorado se torna um ponto vital em uma rede de observação costeira.

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Da ciência à consciência

Os dados coletados servirão de base não apenas para artigos científicos, mas para um plano de ação concreto. “A informação gerada irá subsidiar relatórios técnicos para os órgãos ambientais, mas, crucialmente, será traduzida em material de educação ambiental para as escolas e a comunidade local,” enfatiza Dr. Marlon.

Mais do que uma expedição de coleta, o projeto funciona como um ecossistema de conhecimento. Para os estudantes de graduação e pós-graduação envolvidos, o manguezal se transforma em uma sala de aula viva, uma oportunidade única de aplicar a teoria na prática e contribuir para a pesquisa de ponta. Essa imersão é fundamental para a formação da próxima geração de cientistas ambientais do país, capacitando-os a enfrentar desafios complexos com uma visão integrada. A união entre IFES e UFES quebra os silos acadêmicos, promovendo uma ciência mais robusta e multidisciplinar.

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Fundamentalmente, o projeto reconhece que o conhecimento científico, por si só, é insuficiente. O título “Vozes dos Manguezais” reflete uma filosofia de escuta que se estende à comunidade. A verdadeira força da iniciativa reside na sua capacidade de dialogar com os moradores locais, especialmente pescadores e comunidades tradicionais, cujo conhecimento empírico e histórico é inestimável. “Os moradores mais antigos são os verdadeiros guardiões da memória do manguezal,” reforça Dr. França. “Suas ‘vozes’ nos ajudam a calibrar nossos dados e a construir soluções que sejam não apenas ecologicamente corretas, mas também socialmente justas e culturalmente relevantes.” O projeto planeja realizar oficinas e encontros para que os dados científicos se tornem uma ferramenta de empoderamento, permitindo que a própria comunidade se torne protagonista na fiscalização e proteção do seu patrimônio natural.

Ao final, o Projeto Vozes dos Manguezais de Guarapari visa garantir que o legado da pesquisa seja tanto científico quanto social. Ao dar voz a esses ecossistemas silenciosos, os cientistas esperam não apenas pavimentar o caminho para sua recuperação, mas também inspirar uma nova geração de guardiões para este patrimônio natural inestimável, cuja saúde está intrinsecamente ligada à saúde do planeta.

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Leia mais sobre o financiamento, execução e instiuições parceiras

Por Dhyovaine Nascimento

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